Depois da chuva, ficou a luz.
 

Catarina & Lizuarte — Um casamento, um primeiro aniversário e um dia para guardar.

 

Há dias que começam antes de estarmos preparados para eles.

A manhã corre depressa. Há lugares onde chegar, pessoas à espera, pequenos detalhes por resolver. E, algures no meio de tudo isso, existe a consciência de que aquele não é apenas mais um dia.

Para a Catarina e o Lizuarte, era o dia.

Para a pequena Isabel, era também o seu primeiro aniversário.

Uma data escolhida assim de propósito. Um dia que, a partir de agora, contará sempre duas histórias da mesma família.

A manhã começou de forma descontraída.

O Lizuarte — ou Lee, como a Catarina carinhosamente lhe chama — passou pelo barbeiro para cortar o cabelo e fazer a barba antes de regressar a casa dos pais para se preparar.

Do outro lado, a Catarina vestia-se em casa da mãe, acompanhada pela Isabel, que também se preparava para um dia que um dia lhe irão contar através destas fotografias.

Sem grandes dramatismos.

Sem pressas desnecessárias.

Apenas aquela agitação boa que antecede os momentos importantes.

Antes de tudo começar

Havia, no entanto, uma coisa que a Catarina e o Lee queriam viver antes da cerimónia.

Um momento apenas deles.

Encontrámo-nos no Porto da Eira para o first look.

O Lee esperou de costas.

A Catarina aproximou-se.

E durante alguns segundos houve aquela estranha suspensão do tempo que acontece quando sabemos que algo está prestes a acontecer, mas ainda não aconteceu.

Depois ele virou-se.

E viu-a.

Não foi preciso inventar nada.

O sorriso, o abraço, a forma como se olharam fizeram o resto.

Ficámos por ali durante alguns minutos, aproveitando a tranquilidade do lugar e aquela oportunidade rara de estarem juntos antes de o dia começar verdadeiramente a correr.

Depois seguimos para a igreja.

E o céu mudou.

Chuva

A previsão dizia bom tempo.

Mas quem vive nos Açores sabe o valor relativo dessa frase.

No caminho começou a chover.

Primeiro pouco.

Depois mais.

E depois muito.

Durante cerca de vinte minutos, o céu descarregou praticamente tudo aquilo que parecia ter guardado para aquele dia.

Mas passou.

Como quase tudo passa.

E quando as portas da igreja voltaram a abrir-se, já havia outra coisa preparada para cair sobre os noivos.

Arroz, naturalmente.

Só que a Catarina tinha acrescentado um pequeno detalhe ao plano.

Pistolas de água.

E aquilo que podia ter sido apenas a tradicional saída dos noivos transformou-se rapidamente numa batalha entre eles e os convidados.

Água para um lado.

Arroz para o outro.

Gargalhadas por todo o lado.

E duas pessoas recém-casadas armadas, por alguns instantes, numa versão açoriana e bastante menos perigosa de Mr. & Mrs. Smith.

Talvez tenha sido aí que ficou definitivamente estabelecido o espírito do dia.

Bonito, sim.

Romântico, naturalmente.

Mas nunca demasiado sério.

Uma festa lá fora

A chegada à Irmandade da Rua de Cima dos Cedros também não foi propriamente convencional.

Catarina e Lee chegaram de trator.

E ela saiu a dançar.

A partir daí, ninguém precisava de grandes explicações sobre o tipo de casamento que estavam prestes a viver.

A festa acontecia no exterior, sobre a relva.

Fardos de palha, girassóis sobre as mesas, pequenas tendas, cervejas mergulhadas em gelo dentro de uma tina e até um carro de mão transformado no sítio perfeito para manter mais algumas frescas.

A comida das Três Marias completava o cenário.

Queijos, uvas, figos, fruta, pequenos hambúrgueres, sandes, pizzas, rissóis, doces e tantas outras coisas pensadas para serem provadas sem cerimónias e partilhadas entre conversas.

Não havia aquela fronteira rígida entre estar sentado à mesa e estar na festa.

A festa estava em todo o lado.

Nas pessoas.

Na comida.

Nas conversas.

Nos brindes.

No fumo colorido que, a certa altura, encheu o ar e transformou por alguns instantes toda a paisagem.

E no meio de tudo estava a Isabel.

Sempre sorridente.

Sempre tranquila.

A celebrar o seu primeiro aniversário no casamento dos pais.

Por alguns minutos, lá fora podia esperar

A certa altura, no meio da festa, a Catarina entrou com a filha.

Precisava de a alimentar.

Lá fora continuavam as conversas, a comida, a música e toda a agitação de um casamento.

Lá dentro havia silêncio.

A Catarina com a Isabel nos braços e uma pequena faixa de luz encontrou-lhe o rosto.

Foi um instante muito simples.

E talvez por isso tão poderoso.

Naquele momento deixou de existir a noiva, o horário, os convidados ou tudo aquilo que ainda estava para acontecer.

Havia apenas uma mãe a alimentar a filha no dia em que ela completava um ano.

Fotografar um casamento também é isto.

Perceber quando não é preciso dirigir absolutamente nada.

E guardar.

Depois da chuva, a luz

Entretanto, o dia tinha mudado completamente.

A chuva da manhã desaparecera e o céu começou, lentamente, a oferecer-nos aquilo que algumas horas antes parecia improvável.

Luz.

E que luz.

No final da tarde, o sol desceu e tudo ficou dourado.

Aquela luz quente, suave, quase irreal, que toca a pele, atravessa o ar e durante alguns minutos transforma até aquilo que já conhecemos.

Levamos a Catarina e o Lee connosco.

E o casamento voltou a abrandar.

Já não havia barbeiro.

Já não havia preparação.

Já não havia chuva nem cerimónia.

Por alguns minutos, voltaram a ser apenas os dois.

E reconheci imediatamente aquela calma.

Era a mesma que tínhamos encontrado poucos dias antes, durante a sessão de namoro.

Naquele dia também começámos a mil à hora.

Eu próprio vinha carregado de energia e eles entraram imediatamente na brincadeira.

Mas acabámos devagar.

Junto ao mar.

A ouvir as ondas a rebentar contra a pedra e os garajaus, ainda ativos ao final do dia, a atravessarem o céu.

Com o Lee finalmente sem fome e os dois completamente entregues à tranquilidade daquele momento.

Talvez seja essa uma das coisas mais bonitas na Catarina e no Lizuarte.

Podem existir gargalhadas, pistolas de água, tratores, chuva, música e uma festa inteira à sua volta.

Mas quando tudo abranda, eles parecem saber exatamente onde querem estar.

Um ao lado do outro.

Sem esforço.

Sem precisar de provar nada.

Calmos.

Românticos.

Seguros daquilo que construíram e confiantes naquilo que ainda querem construir.

E foi assim que o dia terminou.

Muito diferente da forma como tinha começado.

A chuva deu lugar ao sol.

A pressa deu lugar à calma.

E aquela manhã cheia de coisas para fazer acabou envolvida numa das luzes mais bonitas que poderíamos ter pedido.

Talvez os dias importantes sejam mesmo assim.

Não precisam de correr exatamente como foram imaginados.

Precisam apenas de ser vividos.

E este foi.

Por inteiro.

Catarina, Lee e Isabel.

Uma família.

Um casamento.

Um primeiro aniversário.

E uma data que, daqui para a frente, terá sempre mais do que uma razão para ser celebrada.