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Entre o salitre e a esperança |
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Há dias em que o tempo parece querer testar tudo. Num fim de semana de maio, uma frente fria atravessava os Açores e deixava o céu inquieto, instável, imprevisível. Entre abertas de sol e nuvens carregadas, o Faial respirava aquele ambiente cru e intenso que só as ilhas conhecem bem. O vento mudava depressa. A luz também. E talvez por isso, tudo o que aconteceu naquela manhã tenha ganho ainda mais verdade. O Marcelo e a Fabiana chegaram mais cedo ao Faial do que imaginavam. A pequena Margarida decidiu começar a escrever a sua história antes do previsto, obrigando a família a antecipar planos, rotinas e dias que ainda pareciam distantes. A gravidez entrou numa fase mais delicada e, no meio de exames, cuidados e ansiedade, houve ainda espaço para parar durante alguns minutos… e guardar aquilo que realmente importa. Porque às vezes basta isso. Naquela manhã de domingo, junto à Marina da Horta, o sol apareceu quase como um presente inesperado. Uma luz dourada, forte, limpa, daquelas que parecem abraçar tudo o que tocam. Durante cerca de quarenta minutos, o mundo acalmou. E foi ali, entre o azul do mar, o salitre no ar e as nuvens pesadas no horizonte, que esta família criou memórias bonitas. A Matilde foi uma surpresa maravilhosa. No dia anterior tinha estado menos bem, mais sensível, mais quieta. Mas naquela manhã surgiu luminosa, feliz, cheia de energia e personalidade. Correu, sorriu, abraçou os pais, brincou sem esforço. Daquelas crianças que não precisam de “fazer pose”, porque simplesmente vivem o momento de forma genuína. Nas fotografias sente-se isso. Sente-se o carinho do Marcelo em cada gesto mais discreto. Há algo de muito especial quando fotografamos pessoas de quem gostamos verdadeiramente. Conheço o Marcelo há muitos anos. Foi uma pessoa importante na minha vida, esteve presente numa das fases mais felizes da minha história e guardo uma enorme gratidão por ele. Ver agora a vida a crescer à sua volta, ver a família bonita que construiu ao lado da Fabiana, torna tudo isto ainda mais emotivo para mim enquanto fotógrafo… e enquanto amigo. Talvez por isso esta sessão tenha tido um significado diferente. Não houve horas intermináveis. Houve apenas verdade. E às vezes é precisamente nesses momentos mais frágeis, mais rápidos e mais imprevisíveis… que nascem as fotografias que ficam para sempre. Minutos depois, a chuva chegou com força. O céu fechou-se completamente e o vento mudou o ambiente em segundos. Terminámos a sessão ali, respeitando o corpo, o momento e a delicadeza daquela fase. Mas honestamente? Porque a Margarida já estava presente em cada abraço, em cada sorriso e em cada olhar daquela manhã. E um dia, quando ela crescer e olhar para estas imagens, vai perceber uma coisa muito bonita: antes mesmo de nascer, já era profundamente amada. |
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