Inês & João — A hora que ficou para sempre
 

As previsões anunciavam chuva. O Faial decidiu outra coisa.

O dia da Inês e do João acabou por ser lindo, luminoso e tranquilo. A chuva apareceu apenas por breves momentos, precisamente quando a Inês chegou à Igreja dos Flamengos. Depois, deixou o dia continuar.

Comecei por acompanhar os preparativos. Na casa do João encontrei grandes janelas e uma luz natural fantástica. Daquelas condições que nos permitem fotografar sem complicar: observar, escolher o lugar certo e deixar as coisas acontecerem. Entre o fato, os últimos detalhes e as pessoas que o acompanhavam, fui construindo as primeiras imagens do dia.

Com a Inês, o espaço era bastante mais pequeno e a luz mais limitada. É também aí que o trabalho muda. Procuram-se outros ângulos, aproximações, expressões e pequenos gestos. No final, as condições podem ser diferentes, mas aquilo que interessa continua lá: as pessoas.

E depois veio a igreja.

A Igreja dos Flamengos é um espaço de que gosto particularmente. Reconstruída depois dos sismos, é ampla, aberta e tem uma luz muito bonita. Para quem fotografa, permite estar presente sem estar constantemente em cima das pessoas. Podemos recuar, observar e deixar a cerimónia respirar.

Foi exatamente isso que fiz quando a Inês entrou.

O João viu-a aproximar-se e tentou segurar a emoção. Durante alguns segundos ainda conseguiu. Depois, os olhos disseram o resto.

Não precisei de lhe pedir absolutamente nada. Estava tudo ali.

Mais tarde, durante a troca das alianças, aconteceu um dos momentos que melhor guardo daquele dia. Padrinhos e amigos juntaram-se ao grupo que estava a cantar na cerimónia. De repente, aquelas vozes eram também as vozes das pessoas que fazem parte da vida da Inês e do João.

A reação dos dois foi imediata.

Choraram, sorriram, olharam um para o outro. À volta deles havia mais gente emocionada. Durante aqueles minutos, ninguém estava a representar coisa nenhuma. E quando isso acontece, o meu trabalho torna-se muito simples: estar atento e não estragar o momento.

Havia também muita gente que tinha feito questão de estar ali. Parte da família e dos convidados da Inês veio de Santa Maria até ao Faial para celebrar com eles. É uma realidade muito nossa, aqui nos Açores: por vezes um casamento também significa aviões, barcos, malas e ilhas pelo meio. Mas naquele sábado estavam todos no mesmo lugar.

Terminada a cerimónia, mudou o ritmo do dia.

E aí entrou o DJ Cisko.

Mais uma vez, mostrou uma qualidade que considero essencial numa festa: sabe ler a sala.

Percebe quando deve puxar pelas pessoas e quando deve simplesmente deixá-las divertir-se. Houve jogos, brincadeiras, música, interação e muita boa disposição. Não foi apenas colocar música e esperar que a pista funcionasse. Houve condução, presença e capacidade de envolver diferentes pessoas ao longo da festa.

Houve ainda algumas surpresas reservadas para a Inês e para o João.

Amigos e padrinhos prepararam um momento especial. Subiram ao palco, leram um texto e, a determinada altura, a sobrinha da Inês e do João aproximou-se com uma caixa.

Lá dentro estava um relógio.

Os ponteiros tinham sido parados na hora em que a Inês e o João deram o primeiro beijo.

No meio de um dia em que estamos constantemente a olhar para as horas — a preparação, a igreja, a chegada, o jantar, a festa — alguém decidiu escolher uma delas e fazê-la parar.

Aquela hora fica deles, para sempre.

E talvez seja também por isso que gosto tanto de contar um casamento através de muitas fotografias.

Naturalmente existem as imagens que esperamos encontrar: os detalhes, as alianças, a entrada na igreja, o beijo, os retratos dos noivos, a primeira dança.

Mas uma história não se faz apenas dessas fotografias.

Faz-se do que acontece entre elas.

De alguém que observa ao fundo. De uma gargalhada que surgiu sem aviso. De uma mão pousada num ombro. Das crianças no meio dos adultos. Dos amigos que já não sabem que estou ali. De quem canta, de quem dança, de quem se emociona e de quem simplesmente fica a olhar.

É aí que procuro estar.

Porque uma fotografia bonita é importante. Mas, com o passar dos anos, acredito que aquilo que ganha realmente valor é reconhecer nela as pessoas e voltar a sentir qualquer coisa daquele dia.

É esse o compromisso que assumo quando me escolhem para fotografar um casamento.

Não quero transformar o vosso casamento numa sessão fotográfica.

Quero que estejam com as vossas pessoas, que conversem, que riam, que chorem se tiver de ser, que dancem e que vivam o dia sem estarem constantemente preocupados com a câmara.

Vocês vivem-no. Eu trato de estar lá para o guardar.