Joana + Rui — O Nosso Lugar
 

Há famílias que não precisam de grandes encenações. Basta juntá-las no mesmo lugar, dar-lhes algum tempo e deixar acontecer.

Com o Rui, a Joana e as quatro filhas foi exatamente assim.

Começámos o fim de tarde na Urzelina ainda com alguma cautela. A câmara estava ali, havia aquela inevitável consciência de estarmos a fazer fotografias e, sobretudo entre as mais velhas, algum nervosismo inicial. Nada de estranho. Nem toda a gente gosta de estar diante de uma objetiva e nem todos precisam do mesmo tempo para se esquecer dela.

Foi precisamente esse tempo que lhes dei.

E, aos poucos, a sessão deixou de parecer uma sessão.

A Raíssa e a Taíssa são gémeas, mas bastam poucos minutos para perceber que cada uma tem a sua maneira muito própria de estar. Personalidades diferentes, ritmos diferentes, formas diferentes de se mostrarem. A Oceana, por sua vez, traz aquela energia de quem está numa fase completamente diferente da vida: mais descontraída com a imagem, mais habituada às selfies e às redes sociais, com aquela confiança própria de quem já sabe perfeitamente quando a câmara está apontada para si.

E depois há a Ema.

A mais pequena da família e, naturalmente, aquela que manda nisto tudo sem sequer saber.

Com ela não existem poses, horários ou grandes planos. Existe o que lhe apetece fazer naquele segundo. Há colo, há corridas, há distrações e há sono a começar a chegar. E houve uma cesta cheia de fruta que rapidamente se tornou muito mais interessante do que qualquer fotografia.

Principalmente as uvas.

A Ema comeu-as com uma dedicação admirável. Uma a uma, completamente concentrada na sua missão, enquanto à sua volta todos tentávamos aproveitar aqueles pequenos segundos em que ela decidia colaborar connosco.

E é justamente aí que uma sessão de família ganha vida.

Não é quando toda a gente está perfeitamente alinhada e a olhar para a câmara. É quando alguém começa a rir sem conseguir parar. Quando uma irmã provoca a outra. Quando os braços aparecem de todos os lados para abraçar a mãe. Quando a pequena foge do sítio onde supostamente deveria ficar. Quando uma fotografia planeada se desfaz por completo — e fica muito melhor assim.

O Rui ajudou bastante nisso.

É difícil estar demasiado sério ao pé dele durante muito tempo. Está sempre pronto para uma brincadeira, uma piada ou um disparate qualquer que faça a Joana rir. E percebe-se que essa é também uma parte importante da dinâmica dos dois. A Joana tem uma energia enorme, é espontânea, expressiva, e o Rui parece ter encontrado há muito a fórmula certa para a desarmar: fazê-la rir.

Entre os dois há aquela cumplicidade que já não precisa de grandes demonstrações. Está na maneira como caminham, na facilidade com que se tocam, nas provocações, nos olhares e naquele abraço que aparece naturalmente quando finalmente ficam alguns minutos sozinhos.

À volta deles estão quatro fases completamente diferentes da vida.

Duas filhas já adultas, uma adolescente e uma menina ainda a descobrir o mundo.

Talvez tenha sido isso que mais gostei de ver nesta família: a diferença não os afasta. Pelo contrário. Faz parte deles.

Quando chegámos à última parte da sessão, já pouco restava daquele nervosismo inicial. As gargalhadas eram verdadeiras, os abraços já não precisavam de indicação e até a formalidade tinha desaparecido. Já ninguém me tratava por “senhor”.

Era só Filipe.

E para mim isso diz muito.

Porque significa que, algures pelo caminho, deixámos de estar simplesmente a fazer fotografias.

Estávamos apenas a passar um fim de tarde juntos.

A luz desceu sobre São Jorge, o mar ficou mais suave ao fundo e seguimos pelos caminhos de terra entre o verde, a pedra e aquele dourado dos últimos minutos do dia.

No fim ficaram as fotografias, claro.

Mas ficou sobretudo aquilo que eu procuro numa sessão destas: uma família tal como ela é.

Com personalidades diferentes. Com barulho. Com colo. Com piadas. Com alguma vergonha no início e abraços apertados no fim.

E com a pequena Ema, provavelmente ainda a pensar nas uvas.