| Caminharemos Contigo |
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Existem dias que ficam na memória pelo que acontece. E existem outros que permanecem connosco por aquilo que conseguimos sentir. A Missa Nova do Padre Fábio Silveira pertence claramente ao segundo grupo. Não foi apenas a celebração do início do seu ministério sacerdotal. Foi o culminar de muitos anos de entrega, serviço e proximidade com uma comunidade que, muito antes de lhe chamar Padre, já lhe chamava amigo. Desde cedo se percebia que aquele não seria um domingo igual aos outros. As ruas do Lugar do Monte despertavam lentamente enquanto dezenas de pessoas começavam a trabalhar num silêncio interrompido apenas por conversas, gargalhadas e pelo som das máquinas de sulfatar com água para manter as hortênsias seguras ao solo. Pouco a pouco, o chão deixava de ser apenas chão. Transformava-se numa homenagem. Cada flor colocada, cada ramo alinhado, cada desenho cuidadosamente construído representava muito mais do que decoração. Eram horas de dedicação oferecidas por familiares, amigos, vizinhos, escuteiros e tantos outros que quiseram deixar uma pequena marca num dia que também sentiam como seu. No meio daquela azáfama caminhava o Padre Fábio. Percorria as ruas calmamente, cumprimentava todos, observava os tapetes que iam ganhando forma e sorria com uma humildade desarmante. Por diversas vezes comentou que não era preciso tanto. A resposta surgiu de forma espontânea. "As pessoas estão apenas a devolver aquilo que receberam de ti ao longo destes anos." Talvez tenha sido a frase mais importante de toda a manhã. Porque explicava tudo. Explicava a dedicação de quem ali estava desde as primeiras horas do dia. Explicava o entusiasmo dos voluntários. Explicava o carinho que se via em cada gesto. Ao longo dos anos, o Fábio fez parte de grupos, associações, escuteiros, iniciativas religiosas e tantas outras atividades da comunidade. Esteve presente quando foi preciso ajudar, ensinar, ouvir ou simplesmente estar. Naquele domingo, sem discursos preparados nem gestos exagerados, a comunidade encontrou a forma mais bonita de lhe agradecer. Trabalhando por ele. Depois aconteceu algo que dificilmente esquecerei. Durante horas, as ruas estiveram repletas de vida. E, de repente, ficaram completamente vazias. O movimento desapareceu. O silêncio tomou conta do Lugar do Monte. Parecia que o mundo tinha parado. Na realidade, todos tinham regressado a casa pelo mesmo motivo. Vestir a melhor roupa. Preparar a família. Voltar dali a pouco. Porque certos dias merecem ser vividos com solenidade. Na casa onde tudo começou respirava-se outro tipo de emoção. Os padres convidados iam chegando discretamente para acompanhar o início daquela caminhada. A Filarmónica preparava-se para abrir o cortejo. O pai recebia quem entrava como sempre soube fazer: um sorriso tranquilo, um copo de licor caseiro e a hospitalidade de quem abre a porta da sua casa com orgulho. Os convidados iam chegando, não apenas para participar na celebração. Chegavam para abraçar um amigo. Para felicitar um filho daquela terra. Para partilhar um momento que sabiam ser irrepetível. Enquanto a casa se enchia de conversas e cumprimentos, aproximava-se o instante que nenhum pai imagina viver da mesma forma. Foi ele quem ajudou o filho a vestir os paramentos. Quem alisou os últimos detalhes. Quem confirmou, quase em silêncio, que estava tudo pronto. E quando finalmente se abraçaram, deixou de existir a sala, as dezenas de pessoas presentes ou o movimento à volta. Existiam apenas um pai e um filho. Um abraço longo. Silencioso. Carregado de orgulho, de amor e de uma emoção impossível de esconder. Talvez porque, naquele instante, também estivesse presente quem já não podia abraçá-los fisicamente. Foi um daqueles momentos em que o tempo escolhe parar. Lá fora, a espera terminara. A multidão ocupava as ruas. Famílias inteiras. Crianças. Jovens. Sacerdotes. Amigos. A Filarmónica deu início ao cortejo e o Lugar do Monte transformou-se numa verdadeira procissão de fé e alegria. À chegada ao adro da Igreja de Santo António, dois tapetes de flores recebiam o novo sacerdote. Num deles lia-se "Bem-vindo". No outro, uma frase que acabaria por resumir todo aquele dia. "Caminharemos contigo." As palmas fizeram-se ouvir. O Padre Fábio respondeu com um grande sorisso, um olhar de alegria e um aceno aos presentes. Respirou fundo. Concentrou-se. E entrou na igreja. No altar nunca esteve sozinho. À sua volta encontravam-se sacerdotes que, mais do que colegas, representam companheiros de caminhada. A sua presença lembrava que nenhuma vocação cresce isolada e que o sacerdócio também se constrói na fraternidade. A celebração decorreu com uma serenidade difícil de explicar. As leituras, os cânticos, as ofertas e as palavras dirigidas por colegas e amigos iam recordando, uma após outra, que o mais importante continua a ser aquilo que levamos no coração e a forma como escolhemos servir os outros. Na homilia, o Padre Fábio resumiu a essência da missão que agora inicia.
Não foram palavras ditas para impressionar. Foram palavras vividas. Talvez por isso tenham encontrado eco em toda a igreja. Terminada a Eucaristia começou outra celebração. Mais simples. Mais próxima. Mais humana. Durante largos minutos sucederam-se os abraços. Foram centenas. Mais de quatrocentas pessoas esperaram pacientemente pela oportunidade de lhe apertar a mão, trocar algumas palavras ou simplesmente agradecer. Cada abraço transportava uma história. Anos de amizade. Catequese. Escutismo. Projetos comuns. Momentos felizes e momentos difíceis. Ali não havia formalidades. Havia gratidão. E havia a certeza de que aquele carinho era profundamente genuíno. A tarde continuou em ambiente de festa. Partiu-se o bolo. Multiplicaram-se as conversas, os reencontros e os sorrisos. A luz dourada envolvia o Lugar do Monte com uma serenidade difícil de descrever, como se o próprio dia se recusasse a terminar. Não me foi possível acompanhar toda a celebração até ao final da noite. Mas tive o privilégio de estar presente nos momentos que verdadeiramente contam uma história. Naqueles que dificilmente se esquecem. Porque, naquele domingo, não começou apenas o ministério de um sacerdote. Começou um novo capítulo na vida de um homem que escolheu dedicar a sua existência ao serviço dos outros. Quando, horas antes, alguém escreveu com flores "Caminharemos contigo", talvez não estivesse apenas a decorar a entrada da igreja. Estava a fazer uma promessa. Porque ninguém caminha sozinho quando passou tantos anos a caminhar ao lado dos outros. E talvez essa tenha sido a imagem mais bonita de todo o dia. Não os tapetes. Nem a multidão. Nem sequer os mais de quatrocentos abraços. Mas a certeza de que um sacerdote iniciou o seu caminho sabendo que, atrás de si, existe uma comunidade inteira disposta a caminhar ao seu lado. Caminharemos contigo. |
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