| Rufina & José Henrique —Uma Vida a Dois |
Há pessoas que parecem envelhecer sem deixar que o tempo lhes pese demasiado nos ombros. A D. Rufina e o Sr. José Henrique são duas delas.Basta estar alguns minutos perto dele para perceber. Há sempre uma brincadeira pronta, uma resposta inesperada, uma daquelas pequenas “asneiras” ditas no momento certo que fazem alguém desatar a rir. Não precisa de procurar a atenção. É simplesmente a sua maneira de estar na vida. E talvez por isso tenha feito tanto sentido celebrar assim 50 anos ao lado da Rufina: com emoção, família, música e, acima de tudo, muitos sorrisos. O dia começou devagar, no salão da Marlene. Entre maquilhagem, cabelo e os últimos detalhes, Rufina foi-se preparando para voltar a ser, por um dia, noiva. Quando chegou a casa, a luz entrava pelas janelas com aquela delicadeza que um fotógrafo não consegue ignorar. Houve tempo para alguns retratos, para o bouquet, para os detalhes. Do outro lado, José Henrique vestia o fato e deixava-se fotografar com a mesma personalidade que levaria consigo durante todo o dia. Quando viu Rufina pronta, até brincou que quase não reconhecia a mulher com quem está casado há meio século. Era mesmo ele. A cerimónia aconteceu na pequena Igreja do Portal, num lugar especial para Rufina e com São Jorge inteiro quase a abrir-se diante de nós. Lá em baixo, a Ribeira Seca; mais longe, o mar e o Pico. E naquele dia quente de setembro, uma luz absolutamente extraordinária a acompanhar tudo. Foi também ali que o Padre Manuel António recordou uma história com quase tantos anos como a sua presença em São Jorge. Quando, há cerca de 36 ou 37 anos, uma das paróquias por onde passou precisava de obras, José Henrique, então ligado à construção civil, disponibilizou-se para ajudar. Uma amizade que começou há décadas e que, de alguma forma, também estava ali naquele altar. Talvez por isso a cerimónia tenha tido aquela familiaridade rara. Houve solenidade, claro. Houve alianças, um beijo, emoção e olhos atentos. Mas houve também José Henrique. Uma resposta aqui, outra acolá, sempre no limite certo entre a brincadeira e o respeito, e de repente uma igreja inteira estava a rir. À saída esperava-os o arroz, a família e uma pequena ligação ao passado: tal como há 50 anos, também desta vez houve um Carocha a fazer parte da história. Mas ainda havia uma fotografia para repetir. No Jardim da Calheta recriámos uma imagem antiga dos dois. Primeiro fizemos o que o passado exigia. Depois deixámos o presente tomar conta da fotografia. E foi aí que os voltei a descobrir. Pedi a José Henrique que dissesse qualquer coisa ao ouvido da Rufina. Não faço ideia do que lhe disse — e talvez seja melhor assim —, mas conhecendo-o, desconfio que romantismo não foi a única coisa que lhe passou pela cabeça. Rufina riu. Ele riu. Eu continuei a fotografar. E durante alguns minutos deixaram de existir os 50 anos, as limitações do corpo ou a ideia de que um casal daquela idade deveria simplesmente ficar quietinho para a fotografia. Caminharam, brincaram, aproximaram-se e entraram em tudo aquilo que lhes fui propondo. Entretanto, o sol descia sobre São Jorge e oferecia-nos uma luz quente, baixa, quase cinematográfica. Foi provavelmente aí que encontrei as fotografias de que mais gosto deste dia. Não porque sejam as mais perfeitas. Mas porque há nelas qualquer coisa que não se consegue encenar: duas pessoas que, depois de uma vida inteira, ainda conseguem fazer-se rir. Quando regressámos ao Portal, os netos esperavam pelos avós com uma canção. E a noite continuou como tinha começado: em família. Houve jantar, brindes, dança, bolo e uma homenagem cantada pela Marlene e pela Natércia. Houve chamarrita, gente a dançar e aquela alegria simples das festas que não precisam de grandes artifícios para serem memoráveis. E houve, inevitavelmente, mais umas quantas brincadeiras do José Henrique. Ao editar estas fotografias, percebi que talvez seja essa a história que quero guardar destas Bodas de Ouro. Não apenas a de um casamento que chegou aos 50 anos. Mas a de duas pessoas que chegaram até aqui sem perder completamente a capacidade de brincar uma com a outra. Porque o tempo muda-nos o rosto, desenha rugas, abranda-nos os passos e leva consigo tanta coisa. Mas quando, 50 anos depois, ainda conseguimos dizer qualquer coisa ao ouvido da pessoa que está ao nosso lado e fazê-la rir como naquele primeiro tempo, talvez tenhamos guardado aquilo que realmente importava. |
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