| Sara + Tiago — O Nosso Sempre |
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Há dias que parecem chegar no momento certo. Na véspera, São Jorge tinha sido chuva, vento e céu fechado. No sábado, tudo mudou. O sol apareceu, a luz abriu-se sobre a Queimada e, quase como se o dia soubesse o que estava prestes a acontecer, tudo ficou mais simples. A Sara e o Tiago iam casar. Depois de nove anos de vida em comum, de uma filha, de planos, mudanças e histórias já partilhadas, não havia propriamente um começo para celebrar. Havia uma continuação. A escolha de reunir as pessoas certas e dizer, diante de todos: é aqui que queremos continuar. A manhã começou em duas casas e com dois ritmos diferentes. Em casa dos pais do Tiago, os padrinhos garantiram desde cedo que ninguém levava os preparativos demasiado a sério. Houve folia, provocações, muita testosterona e alguns valentes calduços pelo meio. Mas por entre a brincadeira havia gestos muito mais silenciosos. A mãe a ajudá-lo a vestir-se. A avó a colocar-lhe o botão de punho. Os irmãos por perto. E aquele tipo de emoção que pai e filho tentam esconder, mesmo quando ambos sabem perfeitamente o que o outro está a sentir. Na casa da Sara, o ambiente era mais sereno. Maria Inês, filha do casal, acompanhava tudo de perto. As irmãs, as madrinhas e a mãe ajudavam nos últimos detalhes. E depois houve aquele instante em que o pai entrou e viu a filha pronta. Há expressões que não precisam de legenda. Também o vestido carregava uma história especial. Foi feito pela Cristina, mãe do Tiago. Mais do que tecido, levava consigo horas de trabalho, cuidado e uma ligação entre duas famílias que já há muito caminhavam juntas. Depois chegou a hora de ir até à pequena ermida da Queimada, junto à casa dos pais do Tiago. Um lugar ligado à família, às raízes e às memórias. Quando Sara entrou, o rosto do Tiago contou imediatamente aquilo que talvez ele próprio não conseguisse dizer. E a partir daí aconteceu aquilo que torna estes dias verdadeiros: a vida entrou dentro da cerimónia. A filha e a afilhada a brincarem. Um sobrinho completamente concentrado nas senhoras que cantavam. Outro a pôr a língua de fora a alguém atrás dele. Uma bisavó a tentar, discretamente, lembrar à bisneta que talvez fosse boa ideia portar-se um bocadinho melhor, hehehehe Tudo isto entre promessas, alianças e olhares cúmplices. Sara e Tiago não estavam a representar um casamento. Estavam a vivê-lo. Depois vieram as fotografias junto ao altar, a família dos três e a saída da ermida. Arroz no ar, gargalhadas e, porque os amigos também fazem parte desta história, uma cerveja rapidamente apareceu na mão do Tiago. A Sara também já tinha a sua bebida. A solenidade ficou para trás e começou a festa. Houve mensagens deixadas para os noivos, fotografias improvisadas, brincadeiras, caretas para uma Polaroid e as inevitáveis reações ao jogo do sapato. Mas entre toda essa leveza também houve momentos que fizeram o tempo abrandar. Uma mãe a dançar com o filho. Um pai a dançar com a filha. Um abraço que durou um pouco mais. É nestes instantes que a fotografia ganha verdadeiro sentido. Porque há coisas que não se inventam. Só é preciso estar lá quando acontecem. Ao cair da noite, o bolo trouxe novamente todos para perto. O fogo iluminou o fundo, a vila Velas sempre presente no horizonte e, mais tarde, as luzes da sala apagaram-se para a primeira dança. Os telemóveis subiram, algumas mãos agarraram as velas das mesas e a Sara e o Tiago começaram a dançar rodeados de pequenas luzes. Depois juntaram-se a Maria Inês e a afilhada Megan. E aquela dança deixou de ser apenas a dança de um casal. Passou a ser a imagem da vida que já construíram. No final ainda houve palavras. Primeiro, as do padrinho. Depois, o Tiago levantou-se para agradecer à família, aos amigos, a quem veio de longe e também àqueles que, apesar de já não poderem ocupar um lugar à mesa, continuam presentes nos dias importantes. Porque há ausências que não significam falta de presença. Nove anos depois de tudo começar, a Sara e o Tiago casaram-se. Mas naquele dia celebrou-se muito mais do que um casamento. Celebrou-se a família que já existe. As amizades que resistem à distância. Os lugares onde permanecem as nossas raízes. Os que estão. Os que continuam connosco de outra maneira. E duas pessoas que, depois de tanta vida partilhada, escolheram simplesmente dizer uma à outra: continuamos daqui. |
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